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A passagem dos anos e a mudança de perspectiva

Apesar de me considerar a rabugenta da net, fico encantada com a possibilidade de reencontrar pessoas através do feici (não me aguento, tenho que usar!), pessoas que não vejo há 15, 20 anos, pessoas que foram minhas amigas, cujas casas frequentei, com quem compartilhei confidências, de quem conheci os pais e os irmãos.

E uma das coisas mais interessantes em saber da vida desses amigos perdidos é ver como a perspectiva deles em relação aos seus pais mudou. Por volta dos 15 anos tive uma amiga cujos pais eram extremamente severos, do tipo controladores mesmo. Vamos chamá-la de Soraia*. Me lembro bem da mãe dela, uma senhora - que na época não devia ser muito mais velha do que eu ou a própria Soraia hoje - de ar austero, óculos de grau enormes, roupas antiquadas. Soraia era a filha mais velha (tinha um irmão e uma irmã mais novos), e no auge da rebeldia, queria sair `a noite, botar saia curta, beijar na boca, namorar, chegou a fugir pela janela de casa pra encontrar um carinha com quem teve um namorico. Odiava ser controlada pela mãe (que por sinal escutava até suas conversas pelo telefone), tentava escapar de todas as maneiras.

Pois a mãe da Soraia morreu, há poucos anos, pelas fotos que vi no feici provavelmente de câncer. E a Soraia a cobre de elogios, manifesta publicamente sua saudade pela mãe falecida, festeja seu pai - pelas minhas memórias, também um senhor austero, de bigode, que conserva até hoje - como exemplo de vida. No lapso de 20 anos, Soraia fez faculdade, casou, teve 2 filhos, hoje adolescentes, não tenho ideia de como foi o desenrolar do relacionamento dela com os pais, não sei que tipo de avós foram. Sei que a Soraia adulta respeita e aparentemente ama muito mais seus pais do que a Soraia de 20 anos atrás. Mas também não sei o quanto replica seus exemplos na criação dos próprios filhos.

Outra amiga, a Mirela*, era filha única, de pais mais velhos que o "normal" (anormal, 40 anos atrás, era ter filhos depois dos 35 anos). Segundo minha mãe - fonte de informação nem sempre confiável - ela não tinha irmãos porque sua mãe teve muita dificuldade para engravidar, e como já era velha na primeira gravidez, não quis arriscar ter mais filhos. Mirela morava numa casa enorme, com cômodos que nunca conheci apesar de ter frequentado o lugar desde criancinha, tinha o próprio quarto, meu sonho de consumo. Como todas as outras mães, não trabalhava fora, e me recordo dela como uma figura apática. A casa era sempre silenciosa, arrumada, e a mãe estava sempre por ali. O pai vi poucas vezes, também um senhorzinho.

Pois a mãe da Mirela também morreu, há bastante tempo, talvez uns 18 anos atrás. Por um desses acasos da vida, reencontrei a Mirela há poucos anos, numa das empresas que trabalhei, e num almoço soube de algumas coisas da vida dela. Ela estava tentando engravidar, e lamentava ter sido filha única - sem a mãe, e o pai já com certa idade e doente, ela se sentia só. Novamente perdi o contato com ela, nesse meio tempo ela teve dois filhos, e eventualmente fala da mãe no feici. Também como exemplo de vida, celebra as semelhanças físicas, sofre de saudades.

E tem também a Joana. A mãe dela era o meu ideal de mãe, era a mãe que queria pra mim. Sempre delicada, carinhosa, até o jeito dela de chamar atenção era amoroso. O pai fazia mais o tipo durão, e embora fossem bem mais severos e moralistas que os meus pais - um episódio antológico foi o pai dela quebrar ao meio o disco de vinil do Camisa de Vênus por causa do nome e dos palavrões e duplos sentidos das músicas (é, sou velha mesmo) - eu adorava a casa dela, o sossego, a harmonia.

Ao contrário das outras, a mãe dela está bem viva e não mudou nadinha. Num reencontro triste, numa das primeiras internações da minha mãe, Joana estava também no hospital, seu filho caçula - na época um bebê - estava internado com pneumonia. E a mãe dela estava lá, com a mesma voz mansa mas firme, o mesmo carinho e cuidado. Aliás a Joana mãe se parece muito com a própria mãe, e a mãe da Joana parecia ser tão boa avó quanto era mãe. E num flashback rápido, me vi adolescente de novo, invejando a mãe da amiga.

Com certeza a adolescência não é o melhor período para se aferir a relação pais-filhos, e a maturidade, a ma/paternidade e o distanciamento mudam muito nossa perspectiva e nossa opinião em relação ao comportamento e atitudes dos nossos pais. Eu mesma entendo muito melhor hoje várias das atitudes da minha mãe, embora não concorde nem copie muita coisa. Outras coisas carregamos sem querer, quando menos esperamos, pumba!, estamos repetindo exatamente aquilo que odiávamos quando filhos.

A minha perspectiva mudou também, com certeza. Embora a relação com a minha mãe nunca tenha sido fácil, eu sinto sua falta, eu penso com frequência que meu filho não conheceu a avó, que a minha filha não vai se lembrar dela. Quando adolescente, jurava de pé junto que faria tudo exatamente oposto ao que ela fazia, o que nem sempre consigo cumprir. Mas é interessante fazer esse exercício, não? Confrontar o adulto de hoje com o que fomos, com o que éramos há alguns anos...

*Nomes trocados... uma coisa é falar de mim, outra é mencionar terceiros...

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