Pular para o conteúdo principal

"Todo filho é pai da morte de seu pai"

E eu li esse texto sensacional aqui, do Fabricio Carpinejar, e chorei. E estou lendo "A culpa é das estrelas", a cada capítulo finalizado choro. Penso em mim, na minha mãe, nos meus filhos.

Tenho um sonho dourado que é morrer de morte fulminante, rápida, um susto e pronto. Ou de algo que me deixe inconsciente por um tempo, pra família se acostumar com a minha ausência, e depois a morte como um descanso. E pra falar a verdade, nem pensava muito nisso até ter alguém próximo doente incurável.

Minha mãe teve câncer de ovário. Que eu soube depois que é um dos tipos mais difíceis de diagnosticar, pois não apresenta sintomas até que o câncer já tenha se espalhado por algum outro órgão próximo, e normalmente aí já é tarde demais - que foi o que aconteceu com ela. O irônico da situação é que ela era muito hipocondríaca, a vida toda teve "doenças", o que nos acostumou a todos, inclusive os médicos que ela frequentava com assiduidade, a não acreditar nela. Foram meses de exames e mais exames, muita reclamação (verdadeira, mas ninguém dava muita bola), muitos médicos, até que um deles desconfiasse e declarasse o diagnóstico. Depois disso, quimioterapia por meses, o que resultou em pouco mais de 1 ano de sobrevida. Ela morreu há 2 anos.

Sou uma pessoa de pouca fé. Tenho sinceras dúvidas se há algo depois da morte, se há realmente uma entidade maior tomando conta de todos nós. Mas não é isso que me aflige quando penso na morte - tenho medo mesmo é da doença, da degeneração, da dependência. Vi de perto o que minha mãe passou. E embora meu pai sempre afirme que ela sabia sim da gravidade da doença - doença essa que ela nunca chamou pelo nome -, que eles conversavam sobre isso, para mim e para minhas irmãs ela se comportava como se comportou a vida toda, usando comentários dramáticos do tipo: será que vou estar viva pra ver tal coisa? Mesmo no fim, numa das nossas últimas conversas, o corpo dela nitidamente dando sinais que já não aguentaria muito mais, ela conversava como se amanhã fosse sair do hospital e retomar a vida de antes.

Isso porque a lucidez nunca a abandonou. Quer me assustar de verdade é pensar em ter uma doença como Alzheimer. A pessoa vai embora aos poucos, deixando só um peso - o corpo - para os outros cuidarem. Pavor total de pensar em ficar assim.

Penso no meu marido, nos meus filhos. No meu pai. Em como será a próxima etapa. Não quero ninguém sofrendo por mim, ou tendo que cuidar de mim. Não quero ter que ser cuidada. Mas não dá pra escolher, não é mesmo?

Comentários

  1. Voce sabe da historia do meu pai, ne? Eu concordo com voce... seria melhor simplesmente tudo acabar rapidinho.
    eu combinei com a minha mae de irmos juntas... Eu nao aguentaria o mundo sem ela, ela disse que nao aguentaria sem mim... A gente brinca, mas no fundo eh uma maneira de lidar com uma dor, um medo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não sei não, Luana, vc já escreveu sobre isso? Preciso ler seus posts mais antigos... Boa essa história de combinar, não deixa de ser uma maneira bonita de expressar o amor que vcs têm uma pela outra...

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Mãezinha é a mãe

Pra mim começou já na maternidade. Nem bem cheguei já fui brindada com o "mãezinha", mas inocente que era, achei que era um acontecimento isolado. Aí nasceu minha filha.... e não paravam de entrar no quarto pessoas me chamando de mãezinha. "Mãezinha, pode sentar". "Mãezinha, paizinho (sim, marido também teve seu momento!), vocês podem assinar aqui?". "Mãezinha, sua bebê não está sugando direito, deixa eu ajudar" - e lá vinha uma mão desconhecida apertar meu peito, mas isso é outro assunto. "Mãezinha, vamos dar banho nessa coisinha linda ?". Inúmeras, muitas vezes. Me incomodou, mas ingenuamente pensei com meus botões: deve ser coisa desse lugar, daqui a pouco vou embora e acabou-se. Ah, santa ignorância! Basta me identificar como mãe de uma ou de outro, pronto. Consultório de médico? Batata. De dentista ? Idem. Hospital, pronto-socorro ? Certeza.  Não me importo muito em ser chamada de mãe por alguém que não é um dos meus filhos. N...

Fui eu que fiz!!

Que me perdoem os/as amantes do isopor e do arco de balões, mas a festa do Pitoco, que foi totalmente isopor less , ficou linda demais... (Não, infelizmente não fui eu quem fez as bandeirolas nem o bolo, mas o projeto é meu!) Sou o bochechudo mais lindo do universo... minha mãe que falou! E pena que o aniversariante chorou na hora H...

De volta para o passado. Ou para o futuro?

Tenho outros assuntos na fila, mas esse passa na frente porque é recente e não quero perder a deixa. Recebi ontem uma mensagem muito zangada da minha sobrinha, de 11 anos. Ela se queixava que a prima - minha filha de 3 - perdeu e/ou estragou alguns brinquedos dela. Aparentemente bastante magoada, e de uma forma até ríspida, me cobrava uma atitude nas nossas próximas visitas para que os fatos não ocorressem novamente. A queixa maior foi em relação a uns bichinhos ganhados pela falecida avó, minha mãe, que a minha filha ama e sempre pede quando vai lá, que foram estragados pela pequena. Na hora me veio à cabeça uma história da minha infância, a história dos sapatinhos da Barbie. Corta para o passado, mais ou menos 30 anos atrás. Eu devia ter uns 8 ou 9, minha irmã por volta de 3. Era a época de ouro da Barbie na minha vida, tinha milhões de roupinhas, alguns móveis e acessórios, e a minha maior preciosidade: os sapatinhos. Que eram poucos, pois naqueles tempos sapatinho só vinha...