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Crônica insone

Nove da noite, começa o processo. Faz um leite, já adianta o outro. Chama uma pra pôr pijama, o outro vê e já sabe que é hora e começa a choramingar. Arruma a cama, escova os dentes. "Mãe, lê historinha?" "Hoje não vai dar filha, papai lê pra você" "Mas eu quero você!!!". Rola uma negociação. Filha aceita o pai, vão os dois pra cama dela. Levo o pequeno pro quarto, troco a fralda. Escuto a conversa dos dois antes de dormir. Aperto no coração por não estar mais tão disponível pra ela. Apago a luz. Pequeno no colo, mama tudo, fraldinha no rosto, cantarolo baixinho. Repertório repetido ad infinitum: Mãezinha do Céu, Boi da Cara Preta, Se essa rua fosse minha, Alecrim. E a cadeira de balanço faz seu trabalho, pra lá e pra cá, pra lá e pra cá. Ufa, dormiu. Coloco no berço, cubro, vou até o outro quarto, já dormiu, dou um beijo. Minha vez, pijama, dentes, cama. Dez e meia, já? Olho para o livro na cabeceira, acho que hoje não, melhor dormir logo, não estou com bom pressentimento para essa noite. Feeling de mãe, não tem erro. Choramingo à uma. Carinho, chupeta, vamos dormir de novo, amor? Ouço a chuva lá fora, delícia dormir com chuva, saudade de dormir sem preocupação. Deito novamente. Duas e meia, novo choro. Dessa vez colo. Quer mamar? Volta a cadeira de balanço a trabalhar, pra lá e pra cá. Mamou, acalmou, peito é o melhor remédio ainda. Deito novamente. Marido ronca deliciosamente ao meu lado, que inveja. Sonho sonhos meio delirantes. Cinco horas, marido se despede, reunião cedo em SP, coitado. Fechou a porta, 2 minutos, novo choramingo. Que aumenta exponencialmente nos 30 segundos que uso para ir ao banheiro. Corro ao quarto, pego no colo. Me viro e vejo a filha, lágrimas nos olhos, assustada e descalça. Choram os dois. "Vai pra minha cama, filha, papai já saiu". Acalmo o que está chorando no colo. Peito de novo, isso acalma. Mas o olhão tá lá, arregalado, omg, vai ficar acordado desde já? Levo pra cama também. Fica quietinho mas acordado. A outra ressona deliciosamente ao meu lado, ufa, pelo menos essa voltou a dormir. Cochilo. Sonho sonhos delirantes. Levo de volta ao berço o pequeno que dormiu de novo, grazadeus. Seis e vinte, me diz o relógio. Que ótimo, mais uma horinha de sono até que acordem. Sete e vinte, escuto "mãe, vamo acordá?" Respondo, vamos. Escuto um dadadá vindo do berço. Bom dia, dia!

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