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A inocência de todos nós

Tenho lido muito por aí textos falando mal de empresas, principalmente aquelas que fazem produtos para mães, bebês e crianças, sejam de alimentos ou de brinquedos. Alguns deles com muito fundamento, diga-se de passagem. Eu não sabia, mas no mundo dos blogs famosos rolam muitos convites para eventos patrocinados por empresas.

Mas sinceramente, acho até graça em muitos deles. Teve um em que a mãe foi com os filhos e marido a um evento de uma grande empresa de celulares, não me lembro da marca. Chegou achando que seria um dia de lazer em família e saiu indignada porque queriam que seus filhos testassem os novos modelos da marca. Uau, que surpresa! Outro, recente, de uma blogueira que respeito muito, conta que foi a um evento patrocinado pela Nestlé, só para ver o que tinham a dizer. Como bem colocado por ela, a empresa está farta de saber que o leite artificial não é melhor que o leite materno, longe deles quererem simplesmente "ajudar" as mães que não conseguem amamentar. E obviamente ao final todos ganharam sacolinhas contendo as famosas papinhas. Meodeos, como assim?! (Em tempo: não acho que celular seja brinquedo pra criança, nem que papinha pronta é uma ótima opção para bebês, muito menos que leite artificial é melhor que leite materno).

O que acho engraçado e até interessante é essa indignação. Não sei de onde veio a ideia de que empresas deveriam se preocupar com o bem-estar dos consumidores. Empresas, sejam S/A, Ltdas ou de fundo de quintal, só têm um objetivo: fazer dinheiro para os acionistas. Propaganda, reformulação de produtos, associação com ONGs, tudo isso é pra fazer bonito e chamar a atenção, consequentemente angariar simpatia de consumidores E vender mais. Eventos com pessoas conhecidas e formadoras de opinião, médicos pra dar um respaldo científico, distribuição de brindes... é pra vender mais, minha gente! Por que a surpresa? Empresas não são instituições filantrópicas...

Que fique claro que não gosto da manipulação. Que acho sim uma espécie de prostituição uma organização de médicos (a Sociedade Brasileira de Pediatria) ser patrocinada por uma "grande empresa multinacional" (a Nestlé). Que propaganda pra criança é covardia (sou entusiasta do Movimento Infância Livre de Consumismo). Como consumidora, tenho um filtro muito crítico para o que entra ou não na minha casa.

Mas eu já trabalhei nessas "multinacionais de grande porte" (adoro esse termo, é o preferido dos recrutadores pra vender uma vaga atrativa para os candidatos) - nenhuma delas voltada para o mercado materno-infantil, mas as premissas são as mesmas. Meu marido trabalha numa dessas. Meus amigos mais próximos trabalham nelas. E confesso: já tive o sonho de trabalhar na Nestlé (sonhava com os chocolates, dizem que ficam à vontade para os funcionários). Acho que ao longo dos anos poli meu ceticismo. Como eu já disse, o objetivo das empresas é lucro. Ponto final. Como consumidores ou funcionários, somos peões nesse jogo. Vejam bem, é uma constatação, um fato do qual temos que estar cientes, não uma bravata contra o mundo capitalista. Como consumidores e/ou funcionários, estar cientes disso é meio caminho andado para 1) tirar o maior proveito disso; 2) não sermos iludidos com falsas informações, venham elas através dos nossos chefes ou da propaganda.

Informação de qualidade é ponto chave para esse empoderamento (ah, termo adorado internet afora...). Tirar o máximo de vantagens para a própria carreira, por mais adversas que sejam as circunstâncias. De modo geral, somos o elo mais fraco da cadeia, dificilmente temos o poder de barganha de igual pra igual. Mas posso escolher não comprar determinado produto. Posso escolher trabalhar na empresa X ou Y. E aí está declarado o fim da inocência.

Comentários

  1. Oi Cintia! Vi seu comentário lá no meu blog, num post sobre livros que li. Demorei, mas respondi seu comentário lá e vim aqui te conhecer!

    Primeiramente, obrigada pelo carinho lá no blog. Eu adoro postar sobre livros e dicas de leitura. Ler é um prazer e um lazer que adoro. Aliás, estou para postar sobre o último que li, vou tentar ainda esta semana.

    Sobre este seu post, adorei seu posicionamento. Eu quase nunca vou em eventos, e nem sou convidada para estes tão grandes. Mas iria sim, para conhecer o ambiente, ver o que as empresas têm a dizer. Eu sou publicitária de formação e já trabalhei em uma "multinacional de grande porte" rs... Sei um pouco como é o lado de lá e não tenho a inocência de achar que as empresas são boazinhas e querem o melhor para os consumidores sem maiores pretensões.

    Por outro lado, fui em um evento outro dia de uma empresa farmacêutica. Tinha uma proposta diferente, de bate-papo com uma pediatra sobre doenças respiratórias. Meu filho tem rinite e fui lá ouvir o que ela tinha a dizer. Foi interessante? Até foi. Mas não é meu mundo. Não vou ficar escrevendo sobre empresa em troca de brinde!

    Ufa, demorei a vir aqui, mas falei um monte rs... Já te linkei e quero voltar mais vezes viu?
    beijos

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    Respostas
    1. Adorei sua visita, Sarah! Gosto muito do seu blog e da maneira sensata como vc escreve, é um dos poucos que continuo lendo... cansei do ativismo exagerado ou das propagandas gratuitas, posições que vários blogs maternos que eu gostava acabaram tomando.
      Escreve mais sobre livros sim! Como eu disse, sinto falta de recomendações, e acho que nossos gostos são meio parecidos.
      Volte sempre! Bjs

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